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Das Boas Intenções
Das Boas Intenções
Das Boas Intenções
Ebook390 pages

Das Boas Intenções

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About this ebook

Fugindo de uma aventura amorosa que acabou mal, Jonas se muda da capital para uma cidade do interior, onde vai cursar Direito. Lá ele se une a um grupo de estudantes desencantados da política que planejam um atentado a um líder local no desfile de Sete de Setembro. Mas é grande a tensão entre seus membros, que têm ideologias e motivações muito diferentes. Na casa em que aluga um quarto, Jonas se envolve com a viúva Martha, sem perceber que também despertou a paixão de sua filha, Laura, uma adolescente inteligente, mas sem nenhuma vivência amorosa. Enquanto isso, Adriana, grávida de Jonas, segue seus passos para confrontá-lo. Será justamente no Dia da Independência que os amores impossíveis, as desavenças políticas e os acertos de contas pessoais irão convergir em um clímax que irá definir o destino de cada personagem. Paul Marcel é romancista, contista e poeta de ocasião. Publicou os romances Epifania , Música de viagem e Das boas intenções . Escreve crônicas e resenhas em paulmarcel.com.br
LanguagePortuguês
Release dateApr 6, 2022
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    Das Boas Intenções - Paul Marcel

    Paul Marcel

    Das boas intenções

    São Paulo

    2022

    Copyright © 2022 Paul Marcel

    Todos os direitos desta edição reservados ao autor.

    Facebook e Instagram: @paulmarcelescritor

    www.paumarcel.com.br

    Proibida a reprodução parcial ou total desta obra

    por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor.

    EDITORAS.COM

    Conduz ao pórtico da verdade, ó candura,

    a quem se encontrar perambulando pelos caminhos da inverdade e do crime

    Oração a Iemanjá

    I

    A cidade suspira no verão, calor inconsequente, inconveniente, a atmosfera azul se curva para protegê-los a todos dos raios do sol risonho, assassino brincalhão. As velhinhas de cabelo púrpura se queixam, os vendedores se lamentam em solidariedade às senhorinhas que mesmo assim chegam como um êxodo faminto ao mercado para saquear suas barracas e bandejas e arrastar consigo sacas e pacotes de legumes e leguminosas, frutas, verduras, carne de boi, de ave e de peixe, ervas para o tempero, folhas para os chás, doces para os guris, nada há de mais implacável que uma dona de casa saída às compras. O catador alcunhado Messias puxa seu carrinho transbordante com esforço obstinado, latas, papelão, jornais, revistas, tranqueiras e cacarecos em geral, sua barba pinga seu esbaforimento enquanto ele saúda a todos que o conhecem, e que de fato são quase todos os circunstantes e transeuntes, com um sorriso desarmante de louco ou santo. Na igreja próxima os padrecos se divertem badalando os sinos e um deles, padre Odilon, novo na congregação e mal saído da idade de fazer artes, se empolga demais, a corda do sino o ergue do chão e, se não fosse pela calçola que traz vestida, teria exposto suas vergonhas eclesiásticas. Cachorros e gatos acertam uma trégua para perambular atrás de alimento gratuito nas esquinas, e são tantos que se tem a impressão perturbadora de que são eles a verdadeira população da cidade. Os trabalhadores que trabalham também aos domingos ruminam inconformismos malformados, guardas de tráfego se cansam rápido da postura imponente e se impacientam até com os bons motoristas, os maus buzinam sua exasperação e ninguém entende como os automóveis saem do lugar, pois o asfalto se liquefaz, talvez flutuem. As famílias bacanas estão no Esporte Clube glugluzando e gargarejando a água das piscinas, só as crianças se divertem de fato, brincam fora e perto da proteção e patrocínio dos pais, são o nosso maior bem, as crianças, não o sabem e por isso o aproveitam bem, os anjos e arcanjos as protegem quando a carroçagem pesadona do sol passa com suas rodas incomensuráveis, esmagando tudo e todos com a dádiva mortal da vida.

    Da chegada de Jonas

    O dia em que Jonas chegou não pareceu essencialmente diferente dos outros para Laura.

    Chegou carregando muitas malas, que nunca sairiam de lá. Martha tinha se afobado o dia todo com os preparativos. Quis a casa limpa e bem arrumada, fez Laura esfregar o chão com esforço redobrado, mandou-a buscar flores para a mesa da sala. A toalha era nova, uma das que tinham estado na gaveta esperando uma ocasião. Depois da morte do marido, não tinha havido ocasião.

    Visitavam pouco, eram pouco visitadas, menos ainda depois do passamento. Pais, irmãs, a família toda de Martha tinha sido contra a união e mantido sua oposição até o fim, até o caixão bater no fundo da cova, como tinha dito Martha, engasgada de ressentimento por não vê-los no enterro.

    Lamentava a falta do marido também nas questões práticas. O dinheiro havia encurtado porque ele não tinha o hábito de guardar, e seguro de vida era coisa de gente rica. Tio Pedro ajudava, sua fazenda ia bem, ele tinha construído uma casa grande e confortável para caber toda sua gente e mais alguém. Era muito agradecido a Martha por tudo que fizera pelo irmão e quis levá-las para morar consigo.

    Helena, sua esposa, tinha sugerido alugar o quarto extra, o que o pai usava para colocar suas tralhas de marceneiro amador, ainda fedendo a verniz mesmo depois de uma esfregação brava.

    Humilhante, humilhante ter que trazer um estranho para dentro de casa...

    Não encare assim.

    E você se esqueceu que eu tenho uma filha? Ela já vai fazer dezessete anos!

    Olhe, você faz o seguinte: só comente com gente da sua confiança e deixe bem claro que tipo de pessoa tem que ser.

    Laura tinha feito tudo que podia para convencer a mãe a não ter receio. Queria dar uma boa educação para a filha, não queria? E sacrifícios todos fazemos, não fazemos?

    Martha tinha comentado sua dificuldade com algumas comadres da igreja. Ainda era uma bela mulher, tinha meros quarenta e dois anos, cabelos loiros que atraíam mais atenção do que ela gostaria e um corpo bem torneado – uma alemãzona, como brincava seu falecido marido.

    Imagine se aparece um bonitão. Quero só ver como ela vai se virar com aquela beatice toda!

    Pois é, ninguém é de ferro... E ela ainda é tão nova!

    Pode casar de novo se quiser!

    Primeiro precisa parar de chorar por causa daquele traste que ela tinha em casa!

    Fazia seis meses, e Laura ainda a flagrava chorando estendida na cama. Exasperava-se, bronqueava com ela, dizendo que já chegava de auto piedade; a mãe soluçava que era saudade mesmo. Laura parou de prestar atenção.

    Tinha escolhido um vestido quase alegre para colocar naquele dia. Queria causar boa impressão, queria que ele soubesse que eram pobres, mas dignas e limpas. Penteou os cabelos da mãe e depois os seus, até as raízes doerem. A amiga Leila tinha debochado.

    Se eu fosse você vestia uns jeans bem apertados e um bustiê, e punha o cabelo para cima num coque, bem ousado. Ou talvez seja melhor solto mesmo, você tem cabelo liso, deve mostrar.

    O que você acha que eu sou? E ele, ia pensar o quê?

    Num primeiro momento, nem iria pensar...

    Minha mãe não ia deixar.

    É, e eu sei porque. Ela não quer concorrência.

    Leila, caramba!

    Via-se que Laura herdava as carnes da mãe e os cabelos negros do pai. Em seu círculo quase exclusivamente feminino, ninguém além de Leila ainda havia reparado que ela se transformava em uma mulher, um tanto à sua revelia.

    As duas não tinham conseguido se informar muito sobre o inquilino, e o pouco que havia chegado aos seus ouvidos bastou para preocupar a mãe.

    Jonas, que diacho de nome é esse?

    Ô mãe, não implique!

    Achei feio.

    É só diferente. E vem da Bíblia, não vem? Você devia gostar!

    O sujeito nem chegou e você já está tomando o partido dele! Não vá me ficar rebelde!

    Adolescente é rebelde, mãe.

    Muito engraçado, minha querida. Vocês duas não têm mais o que fazer, não?

    No fundo, Laura ficava dividida. De um lado existia o pudor da mãe, de outro o mundo de Leila, talvez mistificado pela amiga e pela própria Laura por puro desconhecimento. Entendia a preocupação da mãe, que ela não expunha abertamente, de que a filha cometesse seu erro. Laura argumentava que não era tão desmiolada, que jamais casaria só por estar de barriga e que, por outro lado, se quisesse aprontar, aprontaria de qualquer jeito.

    Não queria assunto com homem, apesar da insistência de Leila, que dizia passar da hora. Sentia-se despreparada, ainda que seu corpo dissesse outra coisa. Suas ideias estavam em outro lugar, se preocupava em ir bem na escola, papear com as amigas. Leila era boa pessoa, só um pouco avançada para sua idade, segundo Martha.

    Laura tinha dúvidas se Leila fazia tudo quanto dizia. Nunca a tinha visto com ninguém.

    Você precisa sair mais.

    Depende.

    Do quê?

    Para onde você quer me levar e com quem.

    Ai meu Deus, você vai ficar igual à tua mãe!

    Também não precisa falar assim, parece que ela é uma freira!

    Não leve a mal, mas você não pode ter medo de gente!

    Eu não tenho!

    Tá, medo de homem...

    Não é medo, só que... só que eu não quero isso que você quer.

    Por que não?

    O tal Jonas tinha vinte e poucos anos. Era de família rica da capital e vinha estudar no Colégio. Advocacia, era o curso que ia seguir. Naquele ano reformavam o prédio do dormitório por causa do incêndio do semestre anterior, e os estudantes de fora tinham que se virar para achar acomodações. O boato que corria à boca pequena era que a reforma poderia ter ficado pronta a tempo e que, se não tinha ficado, era um ato de represália da diretoria contra os estudantes responsáveis pelo acidente, proposital, segundo alguns. Uma injustiça com os novos alunos, pensou Laura e se corrigiu, lembrando a si mesma que, sem aquilo, não teriam alugado o quarto.

    A princípio tinham tido despesas. O quarto precisava de uma mobília mínima, cama, armário, cadeira e um criado mudo. A única veleidade decorativa de Martha havia sido um crucifixo acima da cama. Laura não ousou verbalizar a opinião de que o adereço fazia pouco para alegrar um aposento já tão sem graça.

    O acordo tinha sido feito com a tia de Jonas, uma das frequentadoras da igreja. Esperava que ele fosse um rapaz bem feio e sem graça. Laura passava quase todo o tempo em casa.

    Martha também tinha se arrumado naquele dia. Tinha lá seu quinhão de vaidade e uma noção inconfessa de sua beleza. Era mais discreta do que a filha. O cabelo prendeu num rabo de cavalo, os sapatos de salto baixo tinham visto dias melhores, mas brilhavam, e não havia por que estrear nada, não é mesmo? A blusa e a calça um tamanho maior que o seu a faziam pouco feminina, como intencionava.

    Alguém tinha feito o favor de não recomendar a cantina do Colégio a Jonas. Martha agradecia, poderia cobrar mais pela pensão. Além disso, não acertava fazer comida para duas pessoas, acabava jogando muito fora e se recriminava pelo desperdício.

    Laura se perguntou, e depois à mãe, o motivo de Jonas não ficar na casa da tia. Martha imaginava que ela não queria ter trabalho e que o arranjo viera a calhar, embora a tia fizesse parecer que era ela quem fazia um favor.

    Leila tinha armado uma briga das boas para poder estar lá quando Jonas chegasse. Queria dar uma boa olhada nele.

    De jeito nenhum.

    Deixe de ser chata! Por que não?

    Você não mora lá.

    E daí?

    Nem é da família. Como eu ia explicar sua presença?

    Não precisa!

    Ia ficar na cara que você foi para espionar.

    Espionar!

    É, para depois fofocar para a cidade inteira.

    Ah, obrigada!

    Não leve a mal, mas é verdade. Pelo menos é o que ia parecer.

    Quer saber? Eu não ligo para o que ele pode pensar. Vou estar lá e pronto!

    Não vai, não senhora.

    Você não vai fazer isso comigo, eu sou sua...

    ... melhor amiga, claro. Nem tente me chantagear.

    Ouvi dizer que a velha não pode ficar com ele em casa.

    Que é isso, ela é rica, Leila!

    Não é o que eu ouvi outro dia. Estão falando que o velho não deixou tanto dinheiro quanto ela e todo mundo imaginava e que ela gasta mais do que pode para não perder a pose.

    Mas ela é sozinha, será que ia fazer tanta diferença?

    O sobrinho gasta muito com livros e com roupas. Só veste o que tem de mais fino. E gosta de passear.

    De onde você tirou tudo isso?

    Quanto mais a hora se aproximava, mais indóceis ficavam as três. Laura se lembrava de Leila, em casa, amuada e com raiva. Estava ficando nervosa com os ponteiros do relógio, com sua lentidão angustiante. Teve vontade de arrancá-lo da parede e atirá-lo longe.

    Martha não estava mais tranquila. Andava da sala para a cozinha, afastava a cortina furtivamente, como se pudesse ser pega fazendo algo errado.

    A batida na porta mal se fez ouvir. Só na segunda tentativa as duas mulheres tremeram no sofá. No último instante Laura lembrou que era a mãe quem devia fazer as honras da casa e deu um passo para trás.

    Martha parou diante da porta e esvaziou os pulmões de ar. Abriu a porta com lentidão, afetando uma descontração que não sentia.

    Dona Martha?

    Sim.

    Boa tarde. Eu sou o Jonas.

    Boa tarde, senhor...

    Jonas, por favor.

    Jonas, então. Vamos entrar?

    Sim, obrigado.

    Laura não distinguia suas feições por causa do sol às suas costas. Era alto e magro e usava uma boina, que tirou assim que pisou na sala.

    A senhora me desculpe o atraso. Quando cheguei no ponto de ônibus me disseram que aquele que eu tinha de pegar tinha acabado de passar. Só veio outro dali a vinte minutos.

    Não tem problema, senhor... Jonas.

    Isso, Jonas.

    Não tem problema. Eu e minha filha tínhamos muito o que fazer enquanto esperávamos.

    E com isso indicou-a com um gesto da mão. Laura ficaria eternamente agradecida à mãe por aquela mostra singela de consideração.

    Os vinte e dois anos imputados a Jonas lhe pesavam mais na aparência do que seria de se esperar. Laura se impressionou com sua voz profunda, grave e calorosa. Só mais tarde ela repararia em seus olhos, velados a não ser quando sorria. Jonas lhe fez um aceno curto com a cabeça e esticou a mão grande em sua direção. Laura sentiu uma pressão forte nos dedos ainda frágeis e se perguntou, com uma pontada de decepção, o porquê de tanta formalidade.

    Além disso, havia uma manifestação nas ruas do centro, não muito longe do Colégio.

    Como assim, uma manifestação?

    A senhora não soube? Isso já está ficando comum nas capitais. Querem que o governador renuncie.

    Eu ouvi alguma coisa, mas não dei atenção. Por que querem fazer uma coisa dessas?

    É um governo corrupto, Dona Martha. Um governo que privilegia uma minoria.

    Ambas notaram uma elevação sutil em seu tom de voz.

    Me deixe mostrar seu quarto!

    Ah, claro, obrigado! Vamos lá.

    Você deve estar cansado.

    Não, verdade não.

    Foi uma viagem longa, não foi?

    Sim, mas nem senti passar. Estava tão envolvido nos meus pensamentos que, quando me dei conta, o ônibus já estava encostando.

    Que pena, nem viu a paisagem!

    É, quem sabe da próxima vez.

    Como assim?

    Bom... nas férias eu volto para passar o verão em casa... acho.

    Espero que você goste do quarto.

    Gosto, sim.

    É simples, mas asseado.

    A beleza está na simplicidade, a senhora não acha?

    E eu me encarrego de mantê-lo sempre limpo.

    Os dois adultos se voltaram para o corredor, de onde Laura reclamava atenção.

    Como os outros quartos, quero dizer. É minha função aqui em casa.

    Uma de várias, aliás, e que ela faz muito bem.

    Obrigada, mãe.

    De nada, filha.

    Acho isso ótimo, Laura. Hoje em dia as filhas não querem saber de ajudar em casa.

    É, mas eu ajudo. Minha amiga Leila não faz nada o dia inteiro!

    Ela devia seguir o seu exemplo.

    Eu sempre digo a ela, não adianta. O engraçado é que quando está aqui, ela ajuda.

    O ambiente influencia as pessoas. Quando você está em um lugar onde todos são diferentes, você tende a se comportar como eles.

    Eles ensinam isso na escola de advocacia?

    Jonas emitiu um riso curto cheio de condescendência.

    Na verdade as aulas ainda não começaram. Não, foi a vida que me ensinou. Mas eu tenho certeza de que você já tinha notado isso.

    Para falar a verdade, sim! Às vezes, quando estou assistindo à aula, as meninas começam a conversar perto de mim...

    Hesitou sob o olhar da mãe, mas Jonas escutava com tamanho interesse que Laura resolveu ousar.

    ... elas começam a conversar e eu sinto vontade de me virar e saber do que elas estão falando. A professora vive me dizendo que não entende o que acontece, que eu sou tão boa aluna e blá blá blá...

    A voz da maioria quase sempre fala mais alto.

    Fala mesmo!

    Martha entendeu o raciocínio de Jonas: ele queria demonstrar boa vontade com a menina. Se iam morar na mesma casa, era melhor que se dessem bem... além disso Jonas simbolizava a presença masculina, que devia fazer falta à filha.

    Simpático ele, não é, mãe?

    É sim, filha. Muito simpático.

    Não é bonito como a tia dele deu a entender, mas está longe de ser feio!

    É verdade.

    A Leila vai gostar dele, eu acho.

    Com certeza.

    É. Também não precisa muito para ela gostar de um homem!

    Ô filha, é maldade falar assim da sua amiga!

    Estou brincando, mãe!

    Você me ajuda com o almoço?

    Bom, eu queria ir até a casa da Leila, ela deve estar morrendo de curiosidade...

    Depois do almoço você vai.

    O que é que você tem?

    Como assim, o que é que eu tenho?

    Você está toda tensa!

    Filha, você não entende? É chato eu ficar sozinha em casa com ele!

    Por quê?

    Ele acabou de chegar. É um estranho.

    Nossa, como você é desconfiada! Imagine, ele é uma ótima pessoa!

    Isso o tempo vai dizer.

    Por que você está falando assim?

    Você vai entender um dia.

    Jonas devia ter adivinhado a hora de sair do quarto. Encontrou Laura a meio caminho da sala de jantar.

    Jonas hesitou entre as duas cadeiras restantes e tomou a da direita. Martha teve um sobressalto que não escapou aos outros dois. Laura baixou os olhos.

    O que houve?

    Ah, nada, Jonas, nada, disse Martha.

    Por favor. Eu fiz alguma coisa errada?

    Essa era a cadeira do meu pai, respondeu Laura.

    Desculpe.

    Não foi nada. Você não tinha como saber.

    Por favor, Jonas, sente-se onde preferir.

    Não, tanto faz...

    Jonas, não dê bola para mim. Eu tenho que deixar de ser boba assim.

    A senhora tem certeza?

    Tenho.

    Jonas esperou que as duas se servissem para começar a comer. Martha dava a primeira garfada quando se lembrou.

    Ah, esperem um pouco!

    Trouxe uma garrafa para a mesa e serviu os três copos.

    Vamos fazer um brinde. Seja bem vindo, Jonas!

    Bem vindo, Jonas!

    Muito obrigado. Que Deus abençoe este lar.

    Amém.

    Amém.

    Espero que você goste de suco de laranja.

    É o meu predileto

    * * *

    Conte tudo, não esqueça coisa nenhuma.

    Bom... ele é um amor!

    É bonito?

    Depende do gosto, acho.

    Você acha? Ou é ou não é!

    Então acho que é.

    Tá, o que mais?

    Ele é alto...

    Para você todo homem é alto.

    Não me interrompa! É alto, bem vestido, simpático...

    Usa óculos?

    Usa.

    Ai, eu adoro homem de óculos! Ele tem cara de inteligente?

    Tem cara de ser estudioso, sim. E usava uma boina. Esquisito, né?

    Esquisito por quê? Dá assim um ar de artista.

    Artista? Você acha?

    Deixe para lá. Quantos anos você disse que ele tem?

    Não sei direito... ah sim, vinte e dois, mas aparenta mais.

    Sério?

    Verdade.

    Quanto?

    Uns trinta.

    Vixe! Podia ser seu pai.

    Eu não disse que ele tem cara de velho!

    Leila prosseguia, inclemente como um inquisidor, ávida como uma alcoviteira. Fazia Laura ir e voltar em tudo que dizia e a instava a se lembrar de coisas de que certamente estava se esquecendo.

    Laura voltou para casa perto da hora do jantar. Martha tinha as costas voltadas para a porta da rua, o quadril apoiado na pia da cozinha e os braços pudicamente cruzados. Jonas tinha virado uma cadeira e se sentava com os braços apoiados no encosto. Ambos riam de algo que ele acabava de dizer. Laura se irritou ao vê-los tão animados, e em seguida ficou satisfeita ao notar como a mãe estava pouco à vontade.

    Oi, filha.

    Oi, Laura. Foi passear um pouco?

    Fui até a casa de uma amiga. Ela queria...

    Queria...?

    Nada, besteira.

    O Jonas estava me contando como ele entrou no Colégio.

    Ah, é? E do que vocês estavam rindo?

    Eu dizia para sua mãe a aventura que foi chegar a tempo para o exame.

    Ah é? Quero ouvir também!

    Foi assim: o exame era num sábado de manhã e eu sabia que tinha que acordar cedo. Aí apareceram uns amigos meus me convidando para uma festa. Eu disse que não podia ir, expliquei o motivo. Eles insistiram tanto que acabei indo. Fiz um deles me prometer que me levaria de volta para casa, para que eu pudesse dormir um pouco. Muito bem. Só que lá eu perdi a noção da hora. Você sabe, aquela bagunça, aquela farra.... quando dei por mim eram cinco e meia e o exame estava marcado para as seis! Fiquei desesperado! Contei pros meus amigos o problema. Aí o sujeito que ia me dar carona olhou bem para mim, riu com vontade e falou: ‘Esfrie a cabeça, eu resolvo seu problema’. Eu não entendi, achei que ele estava brincando e falei que não era hora para aquilo. Daí saímos e nos enfiamos no carro dele, todos os cinco. Perguntei para onde íamos, o que ele ia fazer, e nada de ele me dizer. Ele dirigia, os outros riam e eu lá, no banco do passageiro, angustiado, rezando a Deus para me enviar uma ajuda. Estava tão concentrado na minha angústia que levei um susto quando o carro parou. Olhei para fora e lá estava a escola onde ia fazer o exame! Virei para o motorista, perguntei o que estava acontecendo e ele me disse: ´Está entregue. Eu moro aqui, sou o filho do zelador´!

    E o que você fez então?

    Entrei correndo e fui fazer a prova, oras!

    Depois do jantar os três se sentaram para assistir tevê. Laura tentava puxar conversa sem sucesso, Martha se empertigava e Jonas ouvia muito atentamente as notícias.

    Vocês costumam dormir cedo?

    Laura vai para a cama às dez porque levanta cedo no dia seguinte. Eu me deito um pouco mais tarde, lá pelas onze.

    Ah.

    Você não precisa se incomodar com a gente, Jonas. Pode ficar vendo tevê se quiser.

    Ah, obrigado. Não quero interferir com os seus hábitos.

    Não precisa se preocupar com isso. Eu mesma às vezes não tenho sono e fico perambulando pela casa!

    Também me acontece de vez em quando.

    Laura ficou tão enfurecida com o rebaixamento que a frase da mãe lhe imputava que quando reparou no relógio já era hora de se recolher. Resmungou um boa noite por mera educação.

    Não me dá mais beijo?

    Foi até onde a mãe se sentava e lhe pregou um beijo na bochecha com má vontade. Então se viu num impasse. Jonas a observava com expressão divertida. Não conseguiu sentir raiva dele. Seguindo um impulso, deu-lhe um beijo sonoro no rosto e se retirou para o quarto em passo acelerado.

    Martha viu a cor no rosto de Jonas mudar enquanto seus olhos tentavam se recuperar do espanto. Foi incapaz de conter um riso curto.

    Desculpe, Jonas. Essa menina é impossível.

    Imagine, não foi nada, Dona Martha. É só... um gesto de atenção, eu acho.

    É, você tem razão. E pode me chamar de Martha.

    Está bem, Martha, então.

    Isso.

    * * *

    No dia seguinte, Laura teve dificuldade para prestar atenção nas aulas. Ainda se sentia surpresa consigo mesma pela ousadia da noite anterior. Aquela parte ela não tinha contado a Leila, antevendo os comentários que faria, e foi vaga quanto a uma visita de tarde.

    Tenho roupa para lavar.

    Você lava a roupa na quarta-feira!

    É, mas agora tem o Jonas e... e tem umas mudas de roupa que ele pediu para lavar, que sujaram durante a viagem.

    Como, se estavam na mala?

    É que ele trocou de roupa, estava muito quente e...

    Laura, você mente muito mal.

    E para que eu iria mentir?

    Para poder ficar mais tempo por perto quando ele está em casa!

    Mas que desaforo! Você está me chamando de quê?

    Encenava um aborrecimento que não sentia. Quando chegou em casa teve uma decepção: iam almoçar sem Jonas.

    Ele precisou dar um pulo no Colégio.

    Mas as aulas só começam amanhã!

    Eu sei, só que ainda tem uma papelada que ele precisa assinar, você sabe como são essas coisas.

    É, sei.

    Vai passar o almoço todo calada? Como foi hoje na escola?

    Como sempre, mãe, o que você esperava?

    E precisa responder assim? Eu pergunto porque me importo.

    Você já falou.

    E vou repetir quantas vezes precisar. Ainda mais agora que não tenho seu pai para conversar com você e pôr juízo...

    Mãe, não comece! Por favor!

    Filha, você tem que perder essa mania de me cortar quando eu estou falando! Isso é falta de educação.

    Está bem!

    E peça desculpa!

    Desculpa!

    * * *

    Na manhã seguinte, Laura levantou mais cedo.

    O que você tem, filha?

    Nada, mãe, por que o espanto?

    Tinha formiga na cama?

    Muito engraçado!...

    Dormiu mal?

    Não, para falar a verdade, dormi como um bebê.

    Tomou o café rápido e saiu para a rua. Caminhou até a esquina, abaixou-se fingindo amarrar os tênis. Cruzou-lhe a cabeça que Leila já usava sapatos de salto, lembrou dos saltos baixos e largos da mãe e não soube o que concluir destes pensamentos aparentemente complementares. Por que sou assim, por que tenho ideias que não servem para nada? Interrompeu a operação desnecessária com exasperação.

    Teve que esperar muitos minutos, ou assim lhe pareceram, até que finalmente ele saísse. Fechou a porta como se tivesse todo o tempo do mundo. Algo que a mãe disse fê-lo abri-la novamente e colocar a cabeça para dentro. Mesmo de longe Laura viu-o sorrir e se despedir com um aceno.

    Ela se espremeu mais contra a parede de tijolos. Engoliu em seco e fechou os olhos. Dali a pouco ouviu seus passos se aproximando.

    Oi, Jonas!

    Ah, oi, Laura!

    Te assustei?

    Não, imagine. O que faz aqui?

    Estou esperando a Leila.

    Aquela amiga de quem você falou?

    Ela mesma.

    Por que saiu tão cedo de casa?

    Ah, é culpa dela! Ela me pediu para me encontrar com ela aqui, disse que tinha uma coisa para me falar.

    Não podia esperar até a escola?

    Pois é, foi o que disse, mas ela é assim, cheia de segredinhos!

    Ah! Bom, vou indo.

    Espere! Posso andar com você? A minha escola fica no meio do caminho.

    Você não vai perder a hora?

    Não. Vamos?

    Tudo bem.

    Você está nervoso?

    Com o quê?

    O início das aulas.

    Para falar a verdade, não estou, não.

    Sério?

    Deveria estar?

    Bom, você sabe, um lugar novo, com gente nova...

    Isso não vai ser problema. Ontem conheci algumas pessoas que estão na mesma turma.

    Ah, é? Isso é bom, assim você não vai se sentir um estranho na classe, não é?

    É, você tem razão.

    Aproximavam-se da escola de Laura. Ela diminuiu o passo, querendo prolongar o momento. Jonas aparentava pressa.

    Bom...

    Sim?

    Boa aula.

    Para você também. Obrigada pelo passeio!

    De nada! Nos vemos em casa.

    Ótimo. Tchau!

    Tchau.

    Ainda ficou parada diante da entrada enquanto Jonas seguia em frente. Um empurrão no ombro a despertou do devaneio.

    Obrigada por me esperar!

    Ah, oi, Leila! Desculpe, é que eu e o Jonas saímos no mesmo horário e viemos conversando.

    Jura? Preciso começar a acordar mais cedo!

    Se você deixar de perder a hora, já é um progresso.

    Do jeito que você fala parece que eu chego atrasada todos os dias!

    Três vezes por semana é uma boa média.

    Não enche a paciência, Laura! Minha mãe sai de madrugada para trabalhar e...

    E quem disse que a minha me chama? Eu acordo sozinha!

    Você é demais, mesmo!

    Leila queria aparecer na casa da amiga naquela tarde para conhecer Jonas.

    Não sei a que horas ele chega. Ontem era quase hora do jantar.

    Tudo bem, me convida para jantar então!

    Preciso falar com a minha mãe primeiro.

    E desde quando Dona Martha se incomoda comigo? Ela sempre me falou para não fazer cerimônia e...

    Eu sei, mas é que agora ela anda mais atarefada por causa do Jonas.

    Eu ajudo com o jantar e com a louça.

    A louça é tarefa do Jonas.

    Ah, é? Que bom para você, hein?

    Não quer dizer que eu saio correndo da cozinha, Leila.

    Vocês ficam de papo.

    O que você quer? Eu estou na minha casa!

    Você era muito puritana antes de ele chegar.

    O que você quer dizer com isso?

    Você tinha medo até de falar de homem.

    Ai meu Deus, quantas vezes nós vamos ter essa conversa?

    Por que com ele você se sente à vontade?

    Porque ele é educado, simpático e...

    E o quê?

    Sei lá!

    Ah, boa explicação, essa.

    Além do mais, eu não sei se ele ia ficar à vontade.

    O quê? Assim você me ofende!

    Não é isso, ele acabou de chegar e tudo mais...

    Mais um motivo para eu ir, o ambiente fica mais leve!

    Com três mulheres tagarelando? Você fala mais do que a boca!

    Melhor do que ficar quieta com a cara no prato!

    Eu não fico...

    Você não quer descontrair o ambiente? Eu vou, não adianta.

    Mas...

    Mas coisa nenhuma. Confie em mim, eu tenho experiência nesses assuntos.

    Que assuntos?

    Como puxar conversa com um homem.

    Espere um pouco, parece até que você vai a um encontro!

    Não deixa de ser um!

    Eu não estou gostando dessa conversa.

    É o que eu digo: você é muito quadrada.

    Que discussão idiota!

    Quando Jonas chegou, suado e aparentando cansaço, Leila já estava lá. Fez um verdadeiro escândalo, na opinião de Laura, e mal deixou Jonas falar. Laura jurou perceber uma ponta de exasperação no olhar velado de Jonas quando Leila parava para tomar fôlego. Precisou de quase dez minutos para se desculpar e pedir licença para tomar um banho.

    Da busca de Adriana

    Quer dizer que ele não estuda aí?

    Não, não estuda.

    Tem certeza?

    Tenho, sim.

    Está bem. Obrigada.

    Filho da...

    Adriana desligou o telefone, esfregou os olhos com força e suspirou. Você ainda arranca eles fazendo isso, de tão forte que cutuca, costumava dizer sua mãe. Pegou um lápis e riscou um nome em

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